definição por essência X definição por propriedade

“A oposição entre forma e elenco aponta para 2 modos de definir as coisas. O sonho de toda filosofia e de toda a ciência, desde as origens gregas, sempre foi o de conhecer e definir as coisas por essência, e partir de Aristóteles a definição por essência tem sido aquela capaz de definir uma determinada coisa como indivíduo de uma determinada espécie, e esta, por sua vez, como elemento de um determinado gênero. Já a definição por propriedade é a que se usa quando não se tem a definição por essência ou quando a definição por essência não é satisfatória. Portanto, é própria de uma cultura primitiva, que ainda não chegou a construir hierarquias de gêneros e espécies, ou de uma cultura muito madura (e talvez em crise) que pretende por em questão todas as definições precedentes.
Uma definição por propriedade é, segundo Aristóteles, uma definição por acidentes. Se a definição por essência leva em conta as substâncias, presumindo que se sabe quais e quantas são (por exemplo, vivente, animal ou vegetal), um definição por propriedade leva em conta qualquer acidente possível. (…) A realidade é que raramente damos definições por essência, mas antes, com maior freqüência, por lista de propriedades. E eis que então todos os elencos que definem uma coisa através de uma série não finita de propriedades, embora aparentemente vertiginosos, parecem se aproximar bem mais do modo como definimos e reconhecemos as coisas na vida cotidiana (e não nos departamentos científicos).”
De A vertigem das listas, de Umberto Eco