tudo começou com

Tudo começou com o desejo de mapear 100 gestos que marcaram o século XX, na busca de descobrir novas perspectivas para decifrar as corporeidades contemporâneas e suas escolhas estéticas e políticas. Um desejo de criar uma espécie de ‘museu do gesto’, onde pudéssemos observar certos parâmetros de corpo sendo replicados e transformados de geração em geração. Com o apoio do Programa Petrobras de Manutenção a Grupos e Companhias de Dança, esse desejo se transformou em um vasto projeto de pesquisa que se desdobrou em diversas atividades entre 2011 e 2012 – uma série de entrevistas, um grupo de estudos; aulas de corpo e ateliês de criação, espetáculos. Ao longo de todo esse tempo levantamos mais perguntas do que respostas. O que define um gesto? Onde ele começa? Quais as relações entre gesto, postura, atitude, intenção, pensamento, movimento, contexto, linguagem, comunicação? Que gestos nos afetam? Que gestos nos formaram? Que gestos cada um de nós escolheria para uma lista dos 100 mais significativos dos últimos séculos? Ou os 100 mais significativos da própria vida? Uma dança é sempre feita de gestos? O que será que um inventário de gestos pode revelar sobre as escolhas afetivas-estéticas-éticas-políticas dos corpos e de suas danças ?
Na primeira etapa do projeto, que contou com a colaboração do dramaturgo e pesquisador francês Christophe Wavelet, no lugar de tentar responder essas perguntas, fizemos tábula rasa e começamos entrevistando especialistas de várias áreas que se relacionam de alguma forma com o gesto, indagando como cada um deles encontrou a questão do gesto em suas vidas e práticas profissionais. A riqueza destas entrevistas, em sua maioria aqui publicadas, abriu um vasto panorama de interpretação para o conceito de gesto, revelando novos pontos de vista e norteando nossas pesquisas coreográficas e dramatúrgicas. Com uma equipe de seis bailarinos, vindos de lugares e backgrounds distintos no campo da dança, mergulhamos no levantamento de vertiginosas listas de gestos, matéria prima da construção do espetáculo “100 gestos”, que estreou em Agosto de 2012 no Rio de Janeiro.
Mas o projeto não acabou ai. Sentimos a necessidade de partilhar publicamente o riquíssimo processo de pesquisa desse projeto, o que foi possível com o apoio do Fundo de Apoio à Dança (FADA), que patrocinou esta publicação, reunindo as entrevistas, escritos e imagens do processo de criação e do espetáculo final, e um ensaio fotográfico feito especialmente para este livro.
Sem ignorar que o gesto atravessa todos os domínios da comunicação humana, da política à moda, da filosofia à arquitetura, do cinema à psicanálise, o foco principal de nossa pesquisa sempre foi o corpo. Tentar decifrar na gênese do movimento o que se expressa como gesto. Buscar dar visibilidade ao complexo emaranhado de memórias pessoais, aprendizado social e contaminações que tecem a expressão de cada sujeito desde a mais tenra infância e que são uma forma de ser-corpo no mundo. Procurar desvendar universos gestuais particulares a partir das relações que o corpo tece com o peso, com o espaço, com o tempo, com o movimento, com os outros corpos, com o público, com a representação e etc, revelando que o movimento dançado é um discurso. Um corpo que dança revela a especificidade da performance que ele inicia, onde as informações que se processam nele se articulam e se dão a ver com todas as implicações políticas e sociais que lhe são implícitas, seja nas relações com o próprio movimento, seja nas relações que estabelece com a cena e com o contexto no qual está inserido. Nenhum gesto é inocente, nenhuma dança é “só estética”. Cada vez que colocamos um corpo dançando em cena afirmamos um projeto de mundo, dizemos com gestos o que é importante e o que não, o que merece ser apreciado, em que valores acreditamos, quais bandeiras defendemos, mesmo que inconscientemente. Cada projeto estético, por sua vez, não é independente do mundo que o cerca. Foi gestado nesse mundo e com ele dialoga, dando visibilidade a determinados parâmetros, dando voz ou calando algum discurso. E dessa forma colaborando na manutenção ou na transformação dos valores que o engendram. Todas estas relações são extremamente complexas e não devem ser simplificadas, como o fazem os manuais que interpretam os significados dos gestos como se eles não fossem estruturas abertas e plásticas, que se transformam e ganham novos sentidos de acordo com o contexto onde estão inseridos. Como decifrar o complexo emaranhado de memórias pessoais, aprendizado social, contaminações e interpretações que tecem a expressão física de cada sujeito? Não são muitas das nossas escolhas inconscientes e involuntárias, heranças adquiridas nas relações familiares e sócio-culturais, nas informações apreendidas e processadas ao longo da vida?
A aposta em um procedimento inventariante vertiginoso, tanto no processo de pesquisa e criação do espetáculo quanto aqui no livro, optando por uma variedade de abordagens conceituais e universos gestuais, é uma escolha. Fazendo minhas as palavras de Umberto Eco, em “A Vertigem das listas”: Não são as listas e inventários uma “tentativa de dar conta da multiplicidade do mundo, apontando simultaneamente, para os códigos reconhecidos de classificação e para uma maneira particular de captar, por sob as diferenças nomeadas e previstas, os parentescos subterrâneos entre as coisas, suas semelhanças dispersas ? Ou num plano inversamente simétrico: captar, por sob as semelhanças explícitas, as diferenças invisíveis entre os objetos repetidos de uma série?” E existem listas coerentes, que reúnem entidades com algum tipo de parentesco, e listas incongruentes, como a enciclopédia chinesa de Borges, que tanto nos inspirou na confecção dessa coleção de gestos, práticas e discursos, e na qual os animais se dividem em: “a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) etcetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.
Gostaria de agradecer a todas as pessoas envolvidas no longo processo de pesquisa que culmina nesta publicação, e em especial a Carla Stank, Eleonore Guisnet, Lindon Shimizy, Rodrigo Maia, Thiago Gomes, e Tony Hewerton, por todo tempo e energia dedicados a este projeto, fazendo de seus corpos e subjetividades o nosso campo de pesquisa.