2020 – 2016 | Emoticon

O projeto Emoticon surgiu em julho de 2016 dentro da residência artística Brasil-Holanda: HOBRA, que reuniu 20 profissionais e artistas de diversas áreas, 10 brasileiros e 10 holandeses, para 3 semanas de colaborações criativas. Emoticon foi o resultado de uma parceria entre a coreógrafa carioca Dani Lima, o coreógrafo brasileiro radicado na Holanda Fernando Belfiore e a videasta Clara Cavour. A videoinstalação Emoticon|Série HOBRA foi exibida na Centro Cultural Municipal Laurinda Santos Lobo, com os retratos gestuais dos 20 artistas participantes do projeto HOBRA. A série seguinte – Emoticon|Série Dança Carioca – foi uma co-produção com o Festival Panorama 2016, no contexto das comemorações dos seus 25 anos, e retratou 30 criadores que fizeram a história da dança carioca. A videoinstalação ficou em exibição contínua no Instituto Oi Futuro Flamengo durante o mês de Novembro de 2016. Foi considerado pela crítica especializada como um dos melhores trabalhos de dança de 2016.
Os retratos Emoticon são registros videográficos de pessoas em close e em corpo inteiro, durante uma entrevista em que provocações são feitas mas os entrevistados são convidados a não responderem com palavras. O que emerge nos retratos são reações não elaboradas previamente, detalhes do gestual facial, corporal, postural e dançado, marcas de modos de existência e da cultura que os gestou.
Emoticon convida o espectador a mergulhar na fruição da corporeidade gestual humana, investindo no cultivo de relações sociais de empatia e compaixão. Sendo um arquivo serial, elenca lado a lado inúmeros retratos realizados sob as mesmas condições, abrindo espaço para questões relacionadas à valorização das semelhanças entre diferentes e das diferenças entre semelhantes. O projeto dá continuidade à pesquisa da coreógrafa Dani Lima a respeito do gesto, a qual já gerou inúmeros espetáculos de dança, livros e artigos nos últimos 15 anos. O gesto compreendido como um tecido de matéria carnal e de pensamento do qual fazem parte postura, atitude, olhar, gesticulação, voz, trejeitos, expressões faciais, tonicidade e movimentos, que podem ser inconscientes, herdados, aprendidos, inventados e/ou escolhidos. Também dá desenvolvimento ao projeto “Retratos”, da videasta Clara Cavour, uma série de portraits filmados de artistas, pensadores, criadores, esportistas, cientistas, artesãos, profissionais, ativistas, em um encontro único com a realizadora, dando imagem a escrita oral do presente, cartografando os movimentos dos afetos e dos encontros.

2019 | Aquilo que foge

Partindo da obra “Não eu” do irlandês Samuel Beckett e de um arquivo pessoal sobre a avó da artista que perdeu a voz por conta de uma doença degenerativa, esta dança-instalação surge de uma pesquisa sobre memórias de vozes, falas e gestos que ressoam no nosso corpo. O espaço instalativo é composto de dezenas de alto-falantes que materializam uma coleção de cerca de 80 vozes recolhidas por whatsapp de pessoas de vários países.

saudade. a voz dos outros. perder a palavra. faltar alguma coisa. imaginar uma qualidade do corpo da linguagem. o tecido da vértebra da semântica. escrever palavras. falar palavras. a dificuldade em articular histórias pessoais com temas mais gerais. é culpa do assunto que você escolheu. isso poderia ser uma pista. mas não parece. seu repertório. meu vocabulário. tomar nota. reconhecer. não reconhecer. por associação. espelho-voz. chão da voz. gesto da voz. você gosta da sua voz? sempre falta algo. ouvir a própria voz. poder falar. estar acompanhada de outras vozes. ouvir o outro.
a ausência de um centro gravitacional do som. imaginar.“
Barbara Fontana

criação e dança: Babi Fontana
colaboração artística: Dani Lima
colaboração dramatúrgica e co-realização: Victor Costa
paisagem sonora: Dallanoras
colaboração na instalação sonora: Anderson Kaltner
desenho e operação de luz: Laura Salerno
programação visual: Daniel Kucera
fotografia : Renato Mangolin

2014 | Gestos Ordinários | Coleção CDPA 2014

Gestos Ordinários | Coleção CDPA 2014 é um inventário de gestos composto especialmente para Inhotim e dialoga com ideias presentes em todos os museus – o colecionismo, a catalogação, a memória. Traz em sua raiz a extensa pesquisa de Dani Lima sobre o gesto em colaboração com a Cia de Dança do Palácio das Artes.

“Ao ser convidada para criar uma intervenção coreográfica com a Cia. de Dança Palácio das Artes em Inhotim, fiquei me perguntando como o corpo e a dança poderiam produzir experiências sensoriais e estéticas ligadas à vivência ativa do espaço e da natureza com a mesma potência que as obras de arte e a obra botânica e paisagística de Inhotim o fazem. Somou-se a esta inquietação o desejo de inventariar gestos, desejo que norteia meu trabalho há alguns anos, e de criar uma espécie de “museu do gesto”, onde seria possível observar certos parâmetros do corpo e do movimento sendo replicados e transformados, e captar, por detrás das semelhanças explícitas, as diferenças invisíveis entre os objetos repetidos de uma mesma série.

Onde começa um gesto? O modo como nos colocamos de pé já não contém um humor, um projeto sobre o mundo, um gesto? Um corpo, mesmo imóvel, já não revela a especificidade da “performance” que ele inicia, em que as informações que se processam nele se dão a ver com todas as implicações culturais, sociais, éticas e políticas que lhe são implícitas? Esta coleção de gestos, criada em parceria com a CDPA, parte desta premissa. É composta de gestos ordinários, fundadores do nosso ser-estar no mundo e aposta que cada gesto comporta seu próprio real, gerado nas relações que o corpo tece com o peso, com o espaço, com o tempo, com o movimento, com outros corpos, com o olhar do outro, com o contexto…. “

Dani Lima| Julho 2014

Direção e concepção: Dani Lima
Assistente de direção: Patricia Werneck
Criação e interpretação: (bailarinos da Cia. de Dança Palácio das Artes) Alex Silva, Andrea Faria, Ariane de Freitas, Beatriz Kuguimiya, Camila Oliveira, Christiano Castro, Claudia Lobo, Cristiano Reis, Eder Braz, Fernando Cordeiro, Igor Pitangui, Ivan Sodré, Lair Assis, Lina Lapertosa, Lívia Espírito Santo, Lucas Medeiros, Lucas Roque, Mariangela Caramati, Naline Ferraz e Paulo Chamone.
Figurino: Marco Paulo Rolla
Assistência de figurino: Cristina Rangel
Trilha sonora:
Concepção: Dani Lima, Patricia Werneck e Rodrigo Marçal
Direção Artística da Cia de Dança Palácio das Artes: Cristina Machado

A Cia. de Dança Palácio das Artes (CDPA) é referência na história da dança em Minas Gerais e do Brasil. A Companhia se integra aos outros corpos artísticos da Fundação Clóvis Salgado – Orquestra Sinfônica e Coral Lírico de Minas Gerais – em espetáculos cênico-musicais e também desenvolve repertório próprio de dança contemporânea. A investigação, a diversidade de seus intérpretes, a cocriação dos bailarinos e a transdisciplinaridade são os pilares da produção artística deste grupo. Seus espetáculos estimulam o pensamento critico e reflexivo em torno das questões contemporâneas, caracterizando-se pelo diálogo entre a tradição e a inovação.

2015 | 6 modelos para jogar

Este projeto foi idealizado por Alex Cassal e Dani Lima, a partir do desejo de criar um trabalho inspirado na obra “O Jogo da Amarelinha”do escritor Julio Cortázar e criada colaborativamente pelos coreógrafos e diretores Alex Cassal, Dani Lima, Denise Stutz, Cristian Duarte e Márcio Abreu em parceria com os intérpretes-criadores Júlia Rocha, Fábio Osório, Francisco Thiago e Renato Linhares. Assim como o livro de Cortázar dá ao leitor a possibilidade de escolher a sua ordem de leitura, explorando a linguagem como um jogo que nos coloca diante do outro e testa nossas possibilidades de nos encontrarmos ou nos perdermos, o projeto desafiou artistas de diferentes perfis a construírem um espetáculo que seria ao mesmo tempo imprevisível e coletivo, como um jogo. O resultado foram seis espetáculos diferentes, todos criados pela mesma equipe a partir do mesmo material, mas com seleções e organizações distintas. Uma obra multifacetada que convida o espectador a habitá-la, a construir a sensação de deriva, como aquela de um transeunte que pode se perder em uma paisagem desconhecida.

2010 | Coreografia para prédios, pedestres e pombos

Projeto em parceria com a cineasta Paola Barreto e com uma equipe de cerca de 20 artistas e técnicos, que pretende lançar um olhar atento sobre o Largo do Machado, sua arquitetura e seu paisagismo, seus frequentadores, seu cotidiano, suas memórias passadas e presentes, e contribuir para uma redescoberta do potencial poético do espaço público. Afirmar a rua como espaço de experimentação, valorizando a experiência cotidiana e a construção do comum e da comunidade como potência poética.

Uma composição em tempo real, na qual os performers seguem uma série de diagramas de movimentação, previamente ensaiados, mas compõem somente no instante da apresentação uma partitura coletiva, em interação com os pedestres, a arquitetura e as situações imprevisíveis do momento. Os movimentos resgatam ações ordinárias, como o gestual urbano cotidiano e os fluxos de tempo dos pedestres, de forma que os bailarinos misturam-se aos “ocupantes” da praça, confundindo a distinção entre quem está ‘atuando’ e quem está ‘vivendo’. As intervenções performáticas foram gravadas diariamente durante 2 meses, constituindo um imenso banco de imagens do cotidiano do bairro. Foram adicionadas à imagens transmitidas em tempo real para o Instituto Oi futuro e todo material foi editado, sonorizado e projetado em uma performance de “cinema ao vivo”, simultânea à performance da praça. O público podia escolher a forma de assistir ao espetáculo: na praça, ao nível do chão, entre os performers; no Oi Futuro, vendo a mixagem ao vivo das imagens e sons; na torre da Igreja, com binóculos e mp3, escolhendo seus próprios enquadramentos, ou pelo streaming via internet.

concepção e direção de coreografia: Dani Lima
concepção e direção de Videoinstalação: Paola Barreto
em cena: Alice Ripoll, Ana Pi, Átila Calache, Eléonore Guisnet, Gimena de Mello, Ibon Salba, Juliana Medella, Luar Maria, Luciana Costa, Thiago Gomes e Tony Hewerton
assistência de coreografia: Laura Samy
edição de vídeo: Alexandre Antunes
fotos: Thiago Britto, Paola Barreto, Lola Vaz, Dani Lima,
vídeos: Thiago Britto, Alexandre Antunes, Paola barreto
assistência de edição: Lucas Canabravo
trilha sonora e engenharia de som: David Cole
câmera: Thiago Britto e Guilherme Guerreiro
direção de produção: Verônica Prates
produção executiva: Isa Avellar

coreogthere.blogspot.com

2018 | 5 planos para construir juntos

plano de envio
escrever uma carta juntos.
contar a alguém de fora da cidade como está a vida aqui. finalizar o plano postando juntos a carta no correio mais próximo.

plano do dinheiro
trazer 10 reais em espécie.
juntar o dinheiro de todos e decidir coletivamente o que fazer com ele. realizar o plano.

plano de transporte
trazer uma planta para ser transportada pela cidade.
decidir com todos um trajeto e um destino final comum. executar o plano juntos.

plano de composição
compor uma canção juntos.
escolher um lugar e cantar publicamente.

plano de escuta
trazer uma música em qualquer mídia.
ouvir juntos todas as músicas trazidas.

planos renata roel e fernando de proença
colaboradoras dani lima e eleonora fabião
fotos e vídeos lidia ueta
interlocução amabilis de jesus

Agora quando escrevo este texto estamos a 2 dias das eleições. O Brasil está dividido. Estamos atravessados por sentimentos intensos e confusos, sem saber para onde vamos todos nós, 200 milhões de pessoas, sem saber o que poderemos fazer, como iremos viver, quando a possibilidade de argumentar e decidir sobre nossos modos de vida parece estar em jogo. Agora quando escrevo este texto é início de setembro de 2018 e estamos na Casa Hoffmann experimentando equilibrar fluidos e membranas. Estamos num pequeno café na esquina das ruas João Gualberto e Augusto Stresser. Tomamos café e conversamos sobre corpos de baile, levantes e disparates, sobre o desejo de estar na rua, sobre construir coisas com outras pessoas. Que coisas? Fernando fuma cigarros na calçada. Renata gosta de frequentar o baile dos solitários. Eu faço perguntas. Fernando quer fazer convites diretos e simples. “Renata deseja tocar o tecido social. Vamos começar agindo e descobrindo. Um lápis colorido é carregado entre eles dois até a XV. Um passante fala de Deus quando o lápis cai. Chove cântaros. O vidro está embaçado. O Museu Nacional está em chamas. Que tristeza. Está difícil dormir. Duas samambaias gigantes me fazem cafuné. O que restou da riqueza dos vínculos construídos? A arte do encontro. A arte da existência. Que existência de arte? Desejo de novas formas de interagir, de experimentar o mundo-cena. Ações que criem vínculos entre pessoas. Agora quando escrevo este texto estamos no Parque Lage e o sol está quente. Arte é sobre tomada de decisões. Eleonora decidiu tomar um suco rosa. A obra é o ato. Um convite ao ato dos espectadores. Coagentes. Vamos tomar decisões juntos. Falamos durante 3 horas. No naboísmo. Perco o meu brinco. Mas afinal, o que vai ser legal para você e para o Brasil agora. Quais são seus planos. O Saara, o Leme, o Centro, as montanhas que parecem corpos atravessados na cidade. Convidar as pessoas para construir o quê? Qual cidade? Qual corpo? Qual relação? O sol desenha um quadrado de luz na parede da Casa Quatro Ventos e agora quando escrevo este texto já estamos em Curitiba de novo. Vamos cochilar uns minutos no gramado do museu. Serão 10 planos. 6 planos. 5. O que nos alimenta hoje. O que nos envenena hoje. Quem estará com a gente. A que família pertencemos? Orquidáceas, cactáceas, bromélias, nephrolepidaceae… Lidia, Cândida, Gabriel, Daiana, Pablo, Vinicius, Fernando, Eleonora, Dani, Renata e quem mais chegar. A arte do encontro. Uma síntese disjuntiva? Convidar pessoas para construir modos de viver. Juntos. Como viver juntos. Qual país?”
Dani Lima
Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 2018.

“Praticar o vazio. Jogar na roda ou na mesa as ideias, os desejos e construir pensamentos nas possibilidades de traçar rotas e planejar encontros. Brasil, outubro de 2018. Práticas contínuas estas que também são sobre a ativação do meu-nosso corpo para o possível e o inesperado.Debruçar sobre a criação e lidar com materialidades, praticando gestos como possibilidade de interrupção e abertura para que algo se faça junto – decisões, movimentos e vínculos – faz-nos lidar com o tempo do vazio-cheio no chão da Casa Quatro Ventos, no gramado ao lado do Terminal do Portão e no banco da praça Carlos Gomes faz-nos também equilibrar o lápis com a ponta dos dedos e tentar, driblando a tempestade, atravessar a Rua XV, rumo à Praça Osório. Exercitar gestos como mobilizadores das ideias e sustentar a insistência nas tentativas de convites e encontros aqui parece não ter fim e parece ser também o ponto de partida. Encontrar a justa medida da contenção e da soltura aqui também parece não ter fim. Inventar planos como reinvenções da minha-nossa existência com plantas, dinheiro, canções, músicas e cartas com papéis, escritas, conversas, caminhadas e escuta é o que queremos e podemos fazer agora.Construir atmosferas coletivas no meu-nosso minimundo que está o tempo todo sendo feito das relações e mobilizar aqui, aquilo que sou-somos capazes de imaginar e inventar. A imaginação possibilita invenções, levanta voos cidade afora e estar aqui é afirmar minha-nossa presença engajada numa jornada de desafios sem fim sobre o praticar do mesmo chão e do infinito ou finito que pode brotar desta mesma superfície que pisamos.”
Renata Roel
Curitiba, 23 de outubro de 2018.

“Os planos, multidirecionais e encadeados desde aqui e desde o rio de janeiro, a partir de encontros convidados e um sem fim de negociações, se fazem 5. E se farão 5, junto contigo que, se aceitar estar junto, estará construindo em coletivo uma coisa num infinito de imprevisibilidades do chão que pisamos em novembro de 2018.O desejo de fazer corpo junto de corpos, mergulhando na dramaturgia do convite e incendiando o brilho de estar vivo, ilumina nossos encontros. A partir de uma simplicidade absurda – que se faz coisa com planta, dinheiro, carta, músicas e pessoas -, desejamos disparar, pelo convite, relações. Os planos sonham a nova floração do antiautoritarismo que desfalece aqui, no nosso lugar de vida. Os planos sonham e aguentam e planejam e realizam, mas só se forem matéria viva lidada por gente viva.Os 5 cinco podem ser sobre a arte de negociar. Podem ser sobre ternurar presença. Devem ser sobre encontrar considerando diferenças e escolher como o encontro se transporta. Aconchegamos a Casa Quatro Ventos para receber, preparamos café, fizemos aulas, reuniões, viagem, escolhas, andamos em praças do Centro e cruzamento de bairros, dançamos, lemos e escrevemos, falamos de política e políticos, choramos, rimos, gargalhamos, AMAMOS e nunca trabalhamos tanto para estar juntos.O que podemos construir aqui? Hoje? 2018.
Curitiba. Brasil.  Agora.
Fernando de Proença

“Num momento em que o Brasil está cindido e nossa democracia gravemente ameaçada, num momento em que tantos corpos, vidas e modos de vida estão em cheque, 2 artistas, um ator e uma dançarina, decidem que seu trabalho de arte é promover encontros para que grupos de pessoas desconhecidas pensem e ajam coletivamente. São planos para a realização de ações que habitualmente levamos a cabo sozinhxs, com amantes, amigxs ou familiares – escutar música, juntar dinheiro e utilizá-lo, escrever e enviar cartas, transportar coisas pela cidade afora, inventar canções e cantá-las… Pois, para o duo, neste agora, neste momento crítico, é fundamental que façamos essas coisas da vida coletivamente, que tracemos planos, dialoguemos e tomemos decisões entre concidadãos. Interessa então a dramaturgia do convite e a dramaturgia do encontro – as possibilidades e impossibilidades de troca, as dificuldades e facilidades de convívio, as afinidades e desafinos, os comos e porquês de cada coletivo que se reúne em torno de cada proposta para fazer cidade e fazer vida. A operação é tão crua, tão nua, tão no osso, que chego a pensar: não se trata exata ou simplesmente de “planos para construir juntxs”, mas sim para construir o junto. Os grupos, formados pelo duo e quem mais responda ao convite, debaterão e executarão os planos não apenas para que se faça algo juntxs, mas para que um junto se faça. E não “apesar das diferenças”, mas precisamente por meio delas. Importante chamar atenção para o fato de que não apenas agentes humanos participam do trabalho. A cada plano, matérias humanas e não humanas, animadas e inanimadas, visíveis e invisíveis serão acessadas e será preciso escutar cada coisa e o conjunto das coisas – papel, dinheiro, envelope, caneta, plantas, música, memórias, desejos, perspectivas, mãos, bocas, vozes, toque, mesa, paredes, muros, rua, tempo, corações, pensamento. E assim, com firme fineza seguiremos fazendo arte. E assim, com determinação e arte, seguiremos fazendo democracia.”
Eleonora Fabião
Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2018.

2010 | Pra minha filha

Projeto Solo de Dani Lima em colaboração com os coreógrafos João Saldanha e Marcela Levi. Selecionado pelo Programa Rumos Itaú Cultural Dança 2009/2010. Especular sobre uma idéia do feminino articulada a partir de 2 referências icônicas: as pin ups e o arquétipo das princesas no imaginário infantil. De um lado as curvas / torções / distorções / obliquidades envolvendo a bacia, os ombros, a coluna, a cabeça e o olhar, imprimindo certas qualidades ao corpo e ao movimento que identificamos, no senso comum, como “sensual” e “feminino”. De outro lado o romantismo das princesas e sua eterna espera do príncipe encantado que as salvará de suas desgraças. A construção de uma idéia de feminino ligada à ilusão do amor eterno. Que subversões podem surgir quando artificializamos alguma coisa que é dada como natural? Como o deslocamento de certos conceitos impressos no corpo podem desvendar um sistema de valores que embasa nossas percepções, estabelecendo papéis e relações de poder? Como novas formas de pensar o feminino podem brotar em brechas abertas nestas construções? A proposta do projeto é de partilhar com dois criadores que tem em suas trajetórias artísticas referências sobre o feminino – João Saldanha e Marcela Levi – construindo uma espécie de mosaico de interpretações do mesmo assunto. Trabalhar com interlocutores como forma de investir no “saber relacional” que se constitui e se estrutura nas relações afetivas, no jogo da experiência com a alteridade.

2019 | Mulher do fim do mundo

Projeto que busca encontrar na relação entre a palavra, o gesto e o movimento, diversas camadas subjetivas envolvendo o universo feminino. Inspiradas pela música de Elza Soares e pela experiência da sobrecarga de tarefas da mulher contemporânea, as intérpretes-criadoras Erica Rodrigues e Letícia Olomidará Doretto mergulham na intersecção entre suas próprias míticas pessoais e os atravessamentos provindos das ações performáticas realizadas durante o processo de criação, buscando apontar para a necessidade de criação de novos mundos possíveis.

criação e concepção: Erica Rodrigues e Letícia Olomidará Doretto
cocriadoras : todas as mulheres visíveis e invisíveis que encontramos nesse processo
direção colaborativa: Dani Lima, Marco Vettore, Roberto Alencar
figurino: Chris Aizner
trilha sonora: Simone Sou e Gustavo Souza
cenografia: André Cortez
iluminação: Wagner Freire
fotos: Alexandre Catan
design gráfico: Nadezhda Mendes da Rocha e Maria Cau Levy
produção artística: Junior Guimarães
direção geral: Marco Vettore

2008 | Ela e mais alguma coisa – estudo para solo banal

Estudo produzido para os Solos de Dança do Sesc 2008 em parceria com Micheline Torres, com colaboração de Alex Cassal. Especular sobre uma poética cotidiana, sobre as ações ordinárias que constituem a vida de todos os dias.

“Em Ela e mais alguma coisa, Dani Lima e Micheline Torres investigam o gesto feminino mais cotidiano, aquele que perpassa os dias, mas que quase nunca é desvelado. A qualidade do que se apresenta, ainda em forma de pleno processo de elaboração coreográfica, é a da delicadeza enxuta de quem experimenta esse gesto não como um produto, mas antes como algo que está ali em sua dimensão própria, usual, quase banal, quase imperceptível de tão corriqueira”.
Roberto Pereira | Jornal do Brasil

“Em Ela e mais alguma coisa, Dani Lima, em parceria com Micheline Torres, busca criar um ambiente em que a dança perca qualquer qualidade extraordinária. A lista de acontecimentos que compõem um dia, quase todos sem importância, serve de pano de fundo para tratar a dança como um desses eventos.(…) A presença de Dani Lima oscila entre esse estado de tranquilidade quase regular e outros em que se deixa invadir pela dança e mostra que em seu corpo ela aponta para novos desenhos”.
Silvia Soter | O Globo

“O corpo na sua intimidade, sandálias havaianas, calça, blusa, olhando o público, prestes a falar algo, a dançar ou a estar lá, parado. Corpo quase se movendo. Corpo pensando no que fazer. (…) Falamos de danças contemporâneas que assim se definem por pensar o corpo como meio de repensar sua própria dança, não só feita de passos guardados, reproduzidos ou compostos em nova ou velha configuração, mas sim de corpo contido de memória, histórias cheias de estórias e, portanto, de imagens que expõe a matéria do corpo”.
Nirvana Marinho | Polêmica Imagem

1986 – 1998 | Intrépida trupe

Dani Lima foi fundadora e integrante do grupo de Novo Circo Intrépida Trupe por 13 anos, tendo participado de todos os seus trabalhos, participações, shows, oficinas e turnês dentro desse período.
Participou como intérprete-criadora dos seguintes espetáculos da Intrépida Trupe:
IntrepiDez (1996)
Kab-ooom! (1995)
ARN 2 (1993)
ARN (1991)
Intrépida Trupe (1988)
Intrépida Trupe na Rua (1987)
Participou como interprete-criadora da Intrépida Trupe nas montagens Pluft, o Musical, Lucélia Santos (1987) e Sonhos de uma noite de verão, com Lucélia Santos e direção de Werner Herzog (1992)