2013 | Gesto: práticas e discursos

Desdobramento do projeto “100 gestos que marcaram o século XX” (2011/2012), da Cia Dani Lima, o livro conta com dez entrevistas com especialistas vindos de diferentes domínios – Dança, Psicanálise, Filosofia, Antropologia, Cultura Popular, Comunicação, Cinema, Artes Visuais e Educação Somática – a propósito das experiências e conceitos de gesto em suas práticas e áreas de atuação. Patrocinada pelo Fundo de Apoio à Dança (FADA), da Prefeitura do Rio, esta publicação reúne ainda escritos e imagens do processo de criação e do espetáculo “100 gestos”, da Cia Dani Lima, assim como um ensaio fotográfico feito especialmente para o livro.

Entrevistas com: Isabelle Launay, Benilton Bezerra, Charles Feitosa, Luis Camillo Osório, Silvia Soter , Tatiana Roque, Massimo Canivacci, Antônio Nóbrega, Denilson Lopes, Christine Greiner.
Textos de Dani Lima, Alex Cassal e Carla Stank.

Idealização: Dani Lima
Organização: Dani Lima, Silvia Soter (Texto), Mariana Aurélio (Imagens)
Colaboração nas entrevistas: Christophe Wavelet
Direção de Arte: Dani Lima, Mariana Aurélio
Projeto Gráfico e Diagramação: Mariana Aurélio
Fotos: Fábio Seixo
Direção Editorial: Isabel Diegues | Cobogó
Coordenação Editorial: Adriana Maciel
Edição, Publicação e Distribuição: Cobogó

“Tudo começou com o desejo de mapear os 100 gestos que marcaram o século XX, na busca de descobrir novas perspectivas para decifrar as corporeidades contemporâneas e suas escolhas estéticas e políticas. Um desejo de criar uma espécie de ‘museu do gesto’, onde fosse possível observar certos parâmetros de corpo sendo replicados e transformados de geração em geração. Com o apoio do Programa Petrobras de Manutenção a Grupos e Companhias de Dança, esse desejo se transformou em um vasto projeto de pesquisa que se desdobrou em diversas atividades entre 2011 e 2012 – uma série de entrevistas, um grupo de estudos; aulas de corpo e ateliês de criação, espetáculos. Na primeira etapa do projeto, que contou com a colaboração do dramaturgo e pesquisador francês Christophe Wavelet, no lugar de tentar responder essas perguntas, fizemos tábula rasa e começamos entrevistando especialistas de várias áreas que se relacionam de alguma forma com o gesto, indagando como cada um deles encontrou a questão do gesto em suas vidas e práticas profissionais. A riqueza destas entrevistas, em sua maioria aqui publicadas, abriu um vasto panorama de interpretação para o conceito de gesto, revelando novos pontos de vista e norteando nossas pesquisas coreográficas e dramatúrgicas. Com uma equipe de seis bailarinos, vindos de lugares e backgrounds distintos no campo da dança, mergulhamos no levantamento de vertiginosas listas de gestos, matéria prima da construção do espetáculo “100 gestos”, que estreou em Agosto de 2012 no Rio de Janeiro. Mas o projeto não acabou ai. Sentimos a necessidade de partilhar publicamente o riquíssimo processo de pesquisa desse projeto, o que foi possível com o apoio do Fundo de Apoio à Dança (FADA), que patrocinou esta publicação, reunindo as entrevistas, escritos e imagens do processo de criação e do espetáculo final, e um ensaio fotográfico feito especialmente para este livro. Sem ignorar que o gesto atravessa todos os domínios da comunicação humana, da política à moda, da filosofia à arquitetura, do cinema à psicanálise, o foco principal de nossa pesquisa sempre foi o corpo. Tentar decifrar na gênese do movimento o que se expressa como gesto. Buscar dar visibilidade ao complexo emaranhado de memórias pessoais, aprendizado social e contaminações que tecem a expressão de cada sujeito desde a mais tenra infância e que são uma forma de ser-corpo no mundo. Procurar desvendar universos gestuais particulares a partir das relações que o corpo tece com o peso, com o espaço, com o tempo, com o movimento, com os outros corpos, com o público, com a representação e etc, revelando que o movimento dançado é um discurso. Um corpo que dança revela a especificidade da performance que ele inicia, onde as informações que se processam nele se articulam e se dão a ver com todas as implicações políticas e sociais que lhe são implícitas, seja nas relações com o próprio movimento, seja nas relações que estabelece com a cena e com o contexto no qual está inserido. Nenhum gesto é inocente, nenhuma dança é “só estética”. Cada vez que colocamos um corpo dançando em cena afirmamos um projeto de mundo, dizemos com gestos o que é importante e o que não, o que merece ser apreciado, em que valores acreditamos, quais bandeiras defendemos, mesmo que inconscientemente. Cada projeto estético, por sua vez, não é independente do mundo que o cerca. Foi gestado nesse mundo e com ele dialoga, dando visibilidade a determinados parâmetros, dando voz ou calando algum discurso. E dessa forma colaborando na manutenção ou na transformação dos valores que o engendram. Todas estas relações são extremamente complexas e não devem ser simplificadas, como o fazem os manuais que interpretam os significados dos gestos como se eles não fossem estruturas abertas e plásticas, que se transformam e ganham novos sentidos de acordo com o contexto onde estão inseridos. Como decifrar o complexo emaranhado de memórias pessoais, aprendizado social, contaminações e interpretações que tecem a expressão física de cada sujeito? Não são muitas das nossas escolhas inconscientes e involuntárias, heranças adquiridas nas relações familiares e sócio-culturais, nas informações apreendidas e processadas ao longo da vida? A aposta em um procedimento inventariante vertiginoso, tanto no processo de pesquisa e criação do espetáculo quanto aqui no livro, optando por uma variedade de abordagens conceituais e universos gestuais, é uma escolha. Fazendo minhas as palavras de Umberto Eco, em “A Vertigem das listas”: Não são as listas e inventários uma “tentativa de dar conta da multiplicidade do mundo, apontando simultaneamente, para os códigos reconhecidos de classificação e para uma maneira particular de captar, por sob as diferenças nomeadas e previstas, os parentescos subterrâneos entre as coisas, suas semelhanças dispersas ? Ou num plano inversamente simétrico: captar, por sob as semelhanças explícitas, as diferenças invisíveis entre os objetos repetidos de uma série?” E existem listas coerentes, que reúnem entidades com algum tipo de parentesco, e listas incongruentes, como a enciclopédia chinesa de Borges, que tanto nos inspirou na confecção dessa coleção de gestos, práticas e discursos, e na qual os animais se dividem em: “a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) etcetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.
Dani Lima

2007 | Corpo, política e discurso na dança de Lia Rodrigues

Versão da dissertação submetida ao Programa de Mestrado em Teatro do Centro de Letras e Artes da Universidade do Rio de Janeiro – UniRio, esta publicação defende a idéia de que o espetáculo Aquilo de que somos feitos inaugura, tanto na obra coreográfica de Lia Rodrigues quanto na história da dança feita no Brasil, uma nova dimensão política, caracterizada pela presença de uma consciência crítica sobre os próprios parâmetros que constituem o corpo, a dança e a cena. Estes se tornam instâncias privilegiadas de atuação política. São constitutivos de uma forma de performatividade que é, em si mesma, política, criando operações que abalam a percepção e interferem na organização dos espaços e na divisão dos papéis que normalmente constituem um espetáculo de dança contemporânea.

Rigor e Afeto
Foi um privilégio ter orientado esta dissertação de mestrado, que agora sai em livro, da coreógrafa Dani Lima. Não só pela qualidade do texto, mas, principalmente, pela especificidade de se tratar de uma criadora escrevendo sobre outra criadora, Lia Rodrigues, sua amiga e influência de trabalho. Esta proximidade pode parecer um entrave para uma pesquisa rigorosa e crítica. Preconceito cientificista. Trouxe-lhe, ao contrário, um afeto raro e rigoroso. Permitiu que ela escrevesse de dentro da experiência coreográfica, fazendo as articulações teóricas necessárias e, acima de tudo, produzindo um pensamento com a dança e pela dança.

A presença do artista na universidade é uma novidade na cena brasileira recente. Os riscos de domesticação teórica sempre ameaçam, mas a possibilidade de se abrirem canais de diálogo entre teoria e prática são razão suficiente para se correr qualquer risco. No caso da Dani a universidade serviu como um recuo reflexivo que acabou oxigenando sua própria prática coreográfica. Não seria o espetáculo seguinte da autora – “Falam as partes do todo?” – uma espécie de desdobramento criativo da sua experiência teórica (sem determinismos, por favor) e dos diálogos de geração que amadureceram durante a pesquisa de mestrado? Estas convergências e contaminações interessam tanto ao artista como à universidade.

Como o título do livro já anuncia – “Corpo, política e discurso na dança de Lia Rodrigues” – o foco do estudo é o espetáculo Aquilo de que somos feitos realizado pela coreógrafa paulista no ano de 2000. Ele é visto como uma guinada em sua trajetória. Guinada esta que transformou os usos do corpo, sua efetividade política e sua potência discursiva. O interesse é de justamente perceber as formas pelas quais a dança se faz política e discurso, sem ser determinada por uma narrativa programática. Aquilo de que somos feitos, sem romper com a produção coregráfica anterior, estabelece novos parâmetros e inaugura uma nova genealogia histórica, um novo horizonte de diálogo para o trabalho da Lia e isto fica muito bem elucidado no transcorrer das análises da autora.

Um ponto forte, sem dúvida, é a aproximação com a geração conceitual da dança européia dos anos 90 – Jèrôme Bel, Xavier Le Roy, Thomas Lehmen. Destacam-se aí um interesse na desconstrução das imagens do corpo que sustentam os modelos de representação dominantes na dança e a desespetacularização da produção. O corpo como foco de resistência a certas normas de controle que regem nossos processos de subjetivação. Como escreve a autora a respeito do corpo na primeira parte de Aquilo de que somos feitos, “mais do que os movimentos que possa produzir, as formas que possa esculpir, as figuras que possa visitar, é a própria matéria do corpo, em sua qualidade polissêmica, que se coloca em evidência”.

Não só os estudos de dança ganham com a publicação deste livro, mas a própria reflexão sobre a cena artística contemporânea. A ambição de querer dar à dimensão estética ressonâncias políticas e éticas é um desafio a ser compartilhado por todos que vivem as inquietações deste começo de século. Os casos de Dani Lima e Lia Rodrigues são exemplares e este livro está aí para confirmar isso.

Luiz Camillo Osório, Dezembro de 2006.

Para acesso online: https://drive.google.com/file/d/1ym-s3osjYyGInMrhGFTXLAyI_euY_EH9/view?usp=sharing

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